Com a nomeação do Professor Humberto
Marini Neto para Diretor da UE "Santa Emília" - FEBEM, no
Guarujá (SP), a Professora Odete Tambur Durante assumiu o cargo de
Diretora na UE "Álvaro Guião" em São Vicente. Com dois
amigos e admiradores à frente das duas Unidades da FEBEM na Baixada
Santista eu me sentia à vontade para elaborar projetos para eles.
Para retribuir meus trabalhos para a
FEBEM da Baixada Santista, a Secretaria de Estado da Cultura, Ciência e
Tecnologia contratou os meus préstimos. Passei a receber três mil
cruzeiros mensais.
Nesta Unidade haviam menores
infratores. Com 15, 16, 17 anos. E foi com esse pessoal que eu trabalhei
por algum tempo. Criei um núcleo de Teatro Educativo lá dentro. Os
principais objetivos eram de auxiliar a Direção da Unidade na
reeducação daqueles jovens. Confesso que no início senti algumas
dificuldades quanto ao comportamento deles durante as aulas de Teatro
Educativo. Mas, aos poucos, consegui fazê-los gostar do que faziam.
Não me davam mais preocupações. Criamos um grupo de jovens
solidários.
Com o passar do tempo, resolvi montar
uma peça de teatro com eles. Algo simples, mas que pudesse significar
muito para eles. Eu escrevera um texto comemorativo do Dia dos
Professores, intitulado O Mestre. Homenagem aos mestres. Reuni-me
com o professor Humberto e com Psicóloga e Pedagoga. O grupo era
formado por rapazes e, no meu projeto, havia a necessidade de moças.
Após algumas considerações, resolvemos convidar meninas parentes dos
internos. E não me foi difícil fazê-los conviver com o sexo oposto
durante as aulas e ensaios de Teatro Educativo. No meu grupo do
"Santa Emília", 13 rapazes e 14 moças aprendiam que o amor a
um trabalho, a solidariedade para com os colegas e o respeito às regras
de um jogo de vida são os caminhos para a liberdade.
O Mestre, montado pelos internos da
FEBEM do Guarujá, apresentou resultados surpreendentes. Levamos o grupo
para a sala do prefeito do Guarujá. Também apresentaram-se no
mini-auditório do jornal A Tribuna, de Santos (SP), para uma pequena
mas emocionada platéia de jornalistas e funcionários daquele órgão
da imprensa. 
A convite do Secretário da Promoção
Social do Governo de São Paulo, deveríamos apresentar O Mestre
em São Paulo, no Palácio do Governo, para todos os Secretários da
Promoção Social do Brasil, reunidos na Capital paulista. A princípio, a direção da Unidade
elaborou um sistema de segurança a fim de encaminhar os internos para
São Paulo. Eu e o professor Humberto conversamos muito sobre isso. Não
queríamos que nossos artistas fossem lembrados como infratores. Então,
tomei uma decisão drástica. Num ônibus, somente eu iria com eles. Eu
me responsabilizava pelo comportamento deles. Ao professor Humberto
coube a incumbência de convencer o Secretário da minha decisão. Eu
achava que não precisávamos de guardas, nem de Monitores. E assim foi.
Subimos a serra em meio a alegria jamais vista. Os rapazes e as moças
davam-se as mãos e gritavam a palavra 'sucesso!' várias vezes...
Sou suspeito para falar da
repercussão de O Mestre daqueles jovens. Homens de gravata,
mulheres com ricos vestidos, todos quedaram-se às emoções daqueles
momentos. Houve quem estragasse sua maquiagem. Houve quem molhasse seu
lenço. E, após o demorado aplauso de uma importante platéia, os
meninos e meninas daquele grupo, de mãos dadas, gritaram com toda a
força de seus corações: SUCESSO!
Terminada a apresentação e os
abraços e beijos, fomos a um restaurante almoçar. Almoçaríamos eu e
eles, o meu grupo. Uma longa mesa... Salada. Arroz, feijão, batatas e
frango assado, entre outras coisinhas. Comíamos e conversávamos sobre
a peça, sobre a apresentação. Num dado momento, observei que um dos
rapazes colocou um osso do frango num dos bolsos de sua calça,
disfarçadamente. De maneira sutil, para que ninguém visse.
Perguntei-lhe por que fazia aquilo. "Eu não sei onde coloco os
ossos... Acho que é feio colocar eles em cima da mesa..." -
respondeu-me enrubescido. Expliquei-lhe que não era falta de
educação colocar os ossos do frango num canto do prato. Então, para
minha total surpresa, todos tiraram ossos dos bolsos para colocá-los
num canto de seus pratos.
Obrigado, eterno amigo Humberto Marini
Neto. Que Deus o tenha ao Seu lado.
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