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1971. Eu tinha acabado de
realizar o I Festival de Expansão do Teatro Educativo,
em Santos-SP.
Talvez pelo relativo sucesso de um festival
pioneiro, fui convidado a dirigir o Departamento de
Teatro Infantil da Federação Santista de Teatro Amador.
Tinha à minha disposição o palco do teatro da Rádio
Clube de Santos, onde funcionava a Federação. Resolvi
criar um curso de teatro só para crianças de 6 a 12 anos
de idade. Abertas as inscrições, surpreendeu-me o número
de inscritos: 72 crianças. O nascedouro do TERV - Teatro
Educativo de Roberto Villani. As aulas eram ministradas
por mim, aos domingos, no período da manhã. Durante um
ano, um pouco mais, mantive as aulas. Entretanto, por
inúmeras interrupções devido a promoções da Federação em
horários coincidentes com minhas aulas e a problemas
internos, resolvi deixar a Federação e,
conseqüentemente, o palco da Rádio Clube de Santos.
Na verdade, eu não tinha
local para as aulas. Percorri vários locais pedindo
ajuda. Bati em várias portas. Finalmente, uma entidade
assistencial que ficava na Rua Alexandre Herculano, em
Santos, permitiu que eu desse minhas aulas em seu pátio,
aos domingos pela manhã. Infelizmente, não me recordo do
nome dessa Entidade, a quem muito devo. Isso ocorreu em
1972... Pela mudança de local, o grupo perdeu
integrantes. Ficamos com um pouco mais de 40 crianças.
A sistemática de cobrança
para participar do TERV era a seguinte: quem podia
pagar, colaborava mensalmente com uma pequena quantia em
dinheiro. As atividades do TERV sempre apresentavam
despesas e essas contribuições ajudavam a aliviar os
custos. Aqueles que não tinham condições financeiras não
pagavam nada. Participavam de todas as atividades
gratuitamente. E não havia distinções entre os
integrantes do TERV. Todos tinham os mesmos direitos e
deveres.
Em 1974, através do pai
de uma criança integrante do TERV, funcionário do Banco
do Brasil em Santos, fui convidado a participar de uma
reunião com a diretoria da Associação Atlética Banco do
Brasil de Santos. Durante essa reunião fui surpreendido
por uma fascinante proposta: levar o meu TERV aos filhos
de funcionários do Banco do Brasil, através da AABB.
Essa associação possuía um grande sobrado na Rua Bahia,
em Santos, totalmente desocupado. A proposta era que
ali, naquele casarão, eu fizesse a sede do TERV,
oferecendo desconto nas contribuições mensais aos filhos
de associados. Somente isso. Imediatamente tomei todas
as providências para adequar salas do casarão para as
atividades do TERV. Era a primeira e real sede do Teatro
Educativo.
Pela divulgação que a
própria AABB promovia e os comentários que surgiam dos
próprios integrantes e seus familiares, o número de
alunos aumentou surpreendentemente. Chegamos a cento e
poucos. Tínhamos aulas todos os dias da semana, menos
aos domingos. E o TERV ganhou estrutura, sustentada pela
participação de crianças a partir dos 4 anos de idade e
de jovens e adultos, além de seus familiares. Criei uma
comunidade em torno do TERV. E sem me dar conta, eu me
tornava um líder nas áreas educacional, cultural e
social.
Nessa época, alguns
projetos foram desenvolvidos. Realizamos filmagens
experimentais em Super 8. O Rapto da Vovó, curta
com crianças de 4 a 6 anos. A Cruz de Gravetos,
curta com jovens. E O Menino que Veio do Sol, com
crianças e jovens. Com teatro, montamos Zanzalá, o
Cubatão do Futuro,
que
integrou todos os alunos do TERV. O mesmo ocorreu com a
montagem de O Mar, A Vida... Um Poeta: Vicente de
Carvalho,
espetáculo
que levou ao palco em forma dramatizada poesias do poeta
santista. Aliás, essa montagem foi feita atendendo
pedido da Chefe da Divisão de Cultura de Santos, D.
Jurema da Silva Gonçalves. Estudamos, então, Afonso
Schimidt e Vicente de Carvalho, dois grandes vultos
literários da Baixada Santista.
Infelizmente, logo no
início de 1976, fui procurado pela nova diretoria da
AABB. Eles tinham um projeto de derrubar o sobrado da
Rua Bahia a fim de construírem uma piscina no local. E,
mais uma vez, o TERV ficava sem local para sediá-lo. Não
me restava outra coisa. Aluguei um sobrado na Rua
Joaquim Nabuco - número 20, em Santos. Não tinha as
dimensões do casarão, mas foi o suficiente para abrigar
minha casa e o meu TERV. Juntamos lar e ideal. Na parte
superior instalei minha casa. Na parte de baixo, o meu
TERV. Com esta mudança, felizmente, não perdi nenhum
aluno. Todos compareceram na nova sede e me ofereceram
irrestrito apoio. Mesmo os filhos de associados da AABB
e suas famílias. Continuávamos todos juntos. E isso me
deu força maior para continuar construindo meus ideais.
Neste endereço muitos
projetos foram criados e realizados. O Projeto
Infância, com repercussão nacional. O projeto
Maratona da Alegria, maior realização, na época, em
termos filantrópicos e recreativos. Cursos e palestras
sobre teatro, artes e cultura em geral. Até o Juizado de
Menores de Santos, em 1977, promoveu um curso de Teatro
Educativo entre os Comissários de Menores, pelo que
agradecemos o apoio que sempre nos deu o Dr Clineu de
Melo Almada, Juiz de Menores da Comarca de Santos na
época. Alguns Comissários gostaram tanto da experiência
que passaram a integrar a turma adulta do TERV.
Mas não eram só as
crianças que faziam parte na agenda do TERV. Também os
idosos das entidades chamadas de asilos. O TERV sempre
esteve presente nas festividades dessas entidades.
Levávamos nosso Show da Alegria
embrulhado
no nosso carinho, no nosso amor. Muitas tardes
inesquecíveis passamos ao lado daquelas pessoas
excluídas das famílias, da sociedade.
Na Rua Joaquim Nabuco o
TERV apresentou grandes espetáculos teatrais. Entre
eles, podemos citar Festa Brasil, que conta a
história do Folclore Brasileiro, No Bosque dos Sabiás,
infantil que narra a disputa entre pardais e sabiás pela
terra nativa do Brasil. Também apresentamos a peça
Tranque a porta quando sair, teatro adulto. Com a
repercussão do nosso trabalho, em 1980 recebi o prêmio
Destaque em Teatro outorgado pela União
Brasileira dos Escritores.
Mas o TERV não era
somente um teatro escola. Tornara-se com o tempo numa
comunidade que visava levar alegria e felicidade àqueles
pequenos e idosos carentes de atenção, de afeição.
Preparei os mais interessados para as funções de
Monitores de Teatro Educativo, ou seja, ensinei-os a
ministrar nosso método aos assistidos por entidades
sociais. Criei Núcleos na Gota de Leite, na Casa de
Estar, em Santos, e na Centro Comunitário da Vila São
José (Vila Socó) de Cubatão. Nessas entidades, meus
pequenos Monitores levavam de forma alegre e carinhosa o
meu Teatro Educativo para crianças de 3 a seis, sete
anos. Tudo de forma totalmente gratuita. O material que
usávamos eu adquiria por minhas próprias despesas. Foi
nesse mesmo endereço que idealizei e organizei a
Maratona da Alegria, com a ajuda incontestável de
meus alunos e de suas famílias. No dia 12 de outubro de
1977, nove entidades assistenciais e uma favela
receberam a visita de meu TERV. Foi um dia inteiro de
festa. Apresentávamos o Show da Alegria, as
crianças recebiam brinquedos, e às entidades foram
doados roupas, alimentos e material de higiene pessoal.
Mais de mil crianças, nesse dia, riram e brincaram com
meus queridos alunos.
A bem da verdade, o TERV
funcionava em paralelo às minhas outras atividades.
Evidentemente, eu nunca vivi do trabalho com o TERV.
Entretanto, confesso que os resultados do TERV
influenciaram na projeção de minha imagem em outras
áreas. Cheguei a lecionar Folclore e História da Cultura
na Faculdade de Turismo de Santos. Fui (e sou) convidado
para proferir inúmeras palestras sobre Teatro Educativo,
Teatro, Artes e Cultura em geral. Ministrei (e ministro)
cursos de capacitação de professores e de pessoas que
desenvolvem trabalhos junto a crianças e jovens, a
título de extensão universitária e de aperfeiçoamento
profissional, sob promoção da Secretaria de Educação e
Cultura do Estado de São Paulo, da Promoção Social do
Estado, de prefeituras, de sindicatos e de
universidades. Em 1978, na cidade de São Carlos (SP),
alguns amigos iniciaram um movimento para a criação do
Departamento de Teatro Pedagógico na Universidade
Federal de São Carlos, sob minha coordenação. A idéia
foi boa, mas...
O TERV foi e é o meu
grande laboratório de vida. Através dele aperfeiçoei o
meu método de Teatro Educativo. Fiz amigos e
admiradores. Cresci como ser humano e como crente em meu
Mestre Maior - Jesus Cristo. O TERV é parte integrante
de minha vida. Ou talvez a minha própria vida, pois nele
eu e minha esposa criamos nossos filhos. E peço a Deus
que proteja todos aqueles que pelo TERV passaram (passam
e passarão), de forma direta e indireta. Os alunos, seus
familiares, os colaboradores em geral. Que tenha em Sua
companhia aqueles que já se foram. E que abençoe para
sempre João Pereira dos Santos Netto - patrono do TERV,
que com certeza está ao Seu lado, Senhor. Obrigado.
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